
Um
Flamengo consciente de suas próprias fraquezas, mas sem limites para
sonhar. Este é o perfil da equipe que Jayme de Almeida quer ver em campo
neste início de Brasileirão. Com o empate por 0 a 0 com o Goiás, na
primeira rodada da competição, cresceram as dúvidas a respeito das
ambições de um time que tem na inconstância a característica principal
em 2014. Campeão da Copa do Brasil do ano passado, o Rubro-Negro até
conquistou recentemente o Carioca, mas mudou o estilo de jogar e ainda
busca uma identidade que o permita sonhar alto na disputa mais
importante do país. O treinador não esconde que há muito a melhorar.
Entretanto, como cria do clube desde os tempos em que, ainda criança, ia
para Gávea ver seu pai treinar, não aceita outro projeto que não seja o
de chegar em dezembro campeão.
Há sete meses e três dias no
comando rubro-negro, Jayme não tapa o sol com a peneira ao comentar as
fraquezas de momento. O Flamengo ainda carece de padrão de jogo, atuar
longe do Rio de Janeiro é um complicador e os reforços previstos são
modestos. Nada, porém, é suficiente para fazê-lo baixar a guarda. O
decorrer do Brasileirão pode até fazer com que metas menos ambiciosas
sejam traçadas, mas de início o treinador quer ver todo mundo
acreditando que é possível voar alto.
- Podemos melhorar. Com
certeza. Precisamos acertar algumas coisas, mas vejo o grupo querendo
muito. Isso ajuda, é um facilitador para o dia a dia. Temos quase quatro
semanas para treinar, trabalhar, jogando só fim de semana, vamos poder
acertar para fazer um campeonato melhor. O Flamengo pode ser um
pouquinho mais forte e crescer no decorrer da competição (...) Penso
assim: quando entro na competição, é para ganhar. Se não der para
ganhar, tudo bem, mas temos que entrar para ganhar. Temos que pensar em
ser campeão.
O discurso é alinhado ao de que é preciso adaptar o
trabalho às limitações impostas pela conduta escolhida pela diretoria
para arrumar a casa rubro-negra. Jayme não reclama, sabia que seria
assim desde que aceitou o desafio de substituir Mano Menezes, mas se
permite pedir. Na verdade, faz somente um pedido para que tenha em mãos
um elenco em condição de desempenhar um bom papel no Brasileirão.
-
Precisamos de um jogador que faça a ligação do meio-campo para o
ataque. Temos jogadores que são muito velozes, mas não dá para usar a
velocidade o tempo inteiro. O Cadu foi muito importante, tentei colocar
algum jogador, mas ainda não encontramos. Nossa maior dificuldade tem
sido essa, controlar a velocidade com cadencia também. Acho que é nosso
maior problema, mas vamos conseguir resolver e voltar ao nível do ano
passado.
Em longo bate-papo com o GloboEsporte.com no Ninho do
Urubu, Jayme de Almeida falou da condição do Flamengo para esta início
de competição, admitiu a necessidade de dar uma identidade ao time
titular e buscou explicações para o fracasso na Libertadores. A
consolidação da carreira de treinador, a dificuldade do clube em revelar
talentos e a paixão pela leitura também estiveram em pauta em longo
bate-papo que o leitor confere abaixo:
Antes de falar em
objetivos, de que maneira você vê este Flamengo que começa o
Brasileirão? Ainda falta muito para este time ser o que você tem em
mente?
- Podemos melhorar. Com certeza. Precisamos
acertar algumas coisas, mas vejo o grupo querendo muito. Isso ajuda, é
um facilitador para o dia a dia. Temos quase quatro semanas para
treinar, trabalhar, jogando só fim de semana, vamos poder acertar para
fazer um campeonato melhor. O Flamengo pode ser um pouquinho mais forte e
crescer no decorrer da competição.
Você começa o campeonato com 35 jogadores e três reforços que chegam essa semana. Não é um elenco até certo ponto inchado?
-
É muito, eu sei. Já estamos conversando e a ideia é emprestar alguns
meninos que foram importantes no início do ano. Pudemos usar todos, mas
agora com o plantel cheio fica difícil até para eles, que têm que
treinar, trabalhar. Estão na idade em que é preciso continuar jogando.
Vamos procurar reduzir esse grupo para que eles possam sair, jogar e
voltar mais fortes.
Por outro lado, você espera muitas peças novas ou este é um grupo que te satisfaz para o Brasileirão?
-
Estamos bem em muitas posições. Só em uma que estamos vendo algumas
coisas, mas de resto o grupo que vamos disputar o campeonato é esse.
O
Flamengo de 2014 é um time que oscilou muito, seja contra adversários
mais modestos, como na campanha do Carioca, ou até na Libertadores,
quando vence o Emelec fora e perde na sequência em casa. Esse é um
problema que você também identifica? Como tornar o time mais regular?
-
Acho que é fundamental termos um time base. Tivemos que mexer muito.
Agora, vamos ter semanas para trabalhar, fazer uma base de um time que a
torcida e os jogadores também vão saber quem começa as partidas.
Muito
dessa oscilação parece vir também da mudança de perfil do time campeão
da Copa do Brasil para o atual, que é muito veloz e, às vezes, não
respira, não tem a bola...
- Precisamos de um jogador
que faça a ligação do meio-campo para o ataque. Temos jogadores que são
muito velozes, mas não dá para usar a velocidade o tempo inteiro. O Cadu
foi muito importante, tentei colocar algum jogador, mas ainda não
encontramos. Nossa maior dificuldade tem sido essa, controlar a
velocidade com cadência também. Acho que é nosso maior problema, mas
vamos conseguir resolver e voltar ao nível do ano passado.
O Lucas Mugni, que atua nesta posição, não pode ser esse jogador?
-
O Lucas é um menino e estamos procurando mostrar para ele o que
queremos. Ele gosta de entrar em velocidade, mas tem hora que tem que
vir atrás, trabalhar a bola. Ele está tentando, começou a entender e tem
melhorado muito. Se entender bem a função, é um argentino de muita
velocidade, bom drible, mas quer ser muito atacante. Precisamos dele um
pouco mais atrás, tomara que consiga fazer bons jogos porque vai nos
ajudar muito.
Com um elenco que não está entre os
melhores do Brasil, ter um início de competição bom, capaz de embalar,
pode ser determinante para definir a real ambição do Flamengo neste
Brasileirão?
- O Flamengo precisa começar bem para ter
tranquilidade para trabalhar. O elenco não é maravilhoso, mas é forte,
com média boa. Se tivermos um bom início, temos tudo para fazermos um
grande Brasileiro. O Flamengo tem a força da torcida, a garra, a
disposição... É um clube que quando está bem é difícil de ser batido, e
isso vai depender bem do nosso início. Estamos com esperança de fazer um
campeonato melhor. Quando não começa bem e fica brigando para não cair,
a pressão cresce e a responsabilidade aumenta. Estamos pensando em
começar bem para ter tranquilidade. Mesmo estando bem somos sempre
cobrados.
Sendo assim, esses jogos como mandante que
estão sendo fora do Rio não podem ser determinantes? Não são pontos em
que o clube bota ainda mais em risco por sair do Maracanã?
-
Lógico que seria o ideal jogar no Maracanã, mas não podemos ficar
reclamando e de cabeça baixa. É o que nós tempos. A dificuldade vai ser
maior, até pelas viagens, mas não podemos achar que isso é o fator
determinante que vai nos atrapalhar. Se pensarmos assim, não vamos a
lugar nenhum. Temos que superar isso e tentar vencer onde quer que sejam
os jogos.
Como você encara a política de investimento
em nomes sem expressão e que acabam sendo incógnitas? O Paulinho é um
exemplo que deu certo, outros já deixaram o clube...
-
Temos que entender e respeitar a filosofia do clube, as dificuldades que
têm enfrentado. Lógico que todo mundo queria contratar os melhores e
formar um time fantástico. Infelizmente, não pode ser assim. Há
jogadores que observamos, que são revelações e chegam por um custo não
tão alto. O Flamengo pode ganhar com isso, o atleta pode ganhar com
isso. Um exemplo claro foi o Paulinho, que ninguém apostava e agora é
bem cotado no mercado. Torcemos para que esses meninos que estão
chegando possam crescer dentro do clube e possam dar o melhor. Não é
fácil, é difícil jogar no Flamengo, mas esperamos que possam ajudar.
Estão vindo porque fizeram excelentes campeonatos por seus clubes.
Você
fez parte de uma geração que mudou a história do clube com muitas
pratas da casa. Atualmente, poucos têm tido oportunidade e muitos vão
até ser emprestados. Tem explicação para o Flamengo não revelar um
grande jogador há tanto tempo?
- Temos uns meninos aí
que vão ter um futuro enorme, mas cada um tem um processo de
amadurecimento. Quando emprestamos é para continuar jogando e voltar
mais maduro. É preciso confiar e acreditar. Quando voltar, bota de novo.
Sempre falo do Zico, que é da minha geração. Quando tínhamos 15 anos,
ele já era o que sempre foi, o melhor, fazia gol. Em 71, tínhamos 18
anos e ele foi para o profissional e voltou, em 72 foi e voltou, em 73
não era titular e foi começar a ser grande em 74. Houve paciência. Não
adianta querer ser imediato e achar que vão resolver em um jogo. Essa é a
sensibilidade que acho que todo mundo deve ter.
Falando
um pouco da Libertadores, por que foi tão difícil para o Flamengo se
impor neste competição, principalmente em casa? O clube caiu em um grupo
com representantes de países sem tanta tradição e ainda assim foi
eliminado, perdeu pontos no Maracanã...
- A troca
desses times na América do Sul é maior, estão mais acostumados a esse
jogo forte, pesado, com mais contato e força. Tivemos um pouco de
dificuldade de entender melhor o que é Libertadores. São times que têm
mais experiência e isso conta muito em torneios assim, levam vantagem.
Contra o León, abandonamos um pouco o que tínhamos combinado para tentar
ganhar na vontade. Abrimos espaços e um time que é bom aproveitou.
Bobeamos mesmo contra o Bolívar no Rio. Chegamos a ter o controle do
jogo, fizemos 2 a 1 e achamos que tínhamos que fazer três ou quatro.
Bobeamos de forma grave e deixamos escapar. São lições que temos que
aprender.
O que mudou basicamente do seu trabalho do ano
passado para este ano? De técnico tampão, onde o que conseguisse era
lucro, você virou campeão da Copa do Brasil e com uma cobrança maior.
-
Não muda nada. No Flamengo, tem que montar o time para ganhar. A
responsabilidade é sempre a mesma. O torcedor só quer saber de vitórias e
não abre mão disso, independentemente de torneios. Temos que trabalhar
pensando em vencer. Por isso, fomos campeões cariocas. Diziam que dava
para largar, mas não dá nada. A cobrança vem na hora. Vimos a felicidade
do Flamengo campeão pela cidade. Se tivéssemos virado as costas seriam
quatro meses de um desastre total. Faço meu trabalho para tentar brigar
pelos títulos, como acontece agora. Nós somos coadjuvantes, já falaram
isso, faz parte, mas temos que mostrar no dia a dia que somos capazes de
fazer uma coisa bonita.
Se tivéssemos que traçar o perfil do Jayme, o estilo de trabalhar, qual seria?
-
Converso, respeito, mas minha cobrança também é forte. Não que seja
ofensivo, é uma cobrança mesmo do dia a dia de trabalho. Procuro sempre
conversar para que possamos fechar o que queremos fazer nos jogos,
campeonatos, e tenhamos uma confiança mútua. Até agora, tem dado certo.
Os atletas me tratam com muito respeito, carinho, e estou muito feliz.
Esse
período no comando do Flamengo já foi suficiente para você decidir que
será treinador de futebol mesmo após o fim do seu ciclo no clube?
-
Trabalhei em outras equipes e tal, mas sempre quis ser técnico, sempre
fui técnico. Fui auxiliar de grandes amigos, o que é uma honra, como
Zico, Júnior, Luxemburgo... Mas sempre fui técnico, também fui gerente
de futebol. Quando parei de jogar bola e me formei em educação física,
disse que gostaria de seguir trabalhando no esporte. É o que eu gosto.
Quando terminar meu ciclo no Flamengo, vou seguir no esporte. Isso é
básico para mim. Não vou ficar em casa sentado. Tenho condição, saúde, e
vou seguir trabalhando. Se for como técnico, melhor ainda. É uma coisa
que eu gosto, acho que faço bem, tenho experiência. Não tenho medo. A
minha certeza é continuar no esporte.
O que o Jayme de Almeida gosta de fazer nos momentos de lazer?
-
O que mais gosto é de leitura. Não consigo ficar sem um livro. Se eu
não estiver lendo, me sinto mal, parece que está faltando algo no meu
dia a dia. Quando não acho nada de interessante nas livrarias, pego um
livro antigo que gosto. É uma coisa que eu amo, assim como música,
cinema, teatro... Mas o meu lazer preferido quando esqueço futebol é uma
boa leitura.
Está lendo algum atualmente?
- "O homem que amava cachorros" (de Leonardo Padura).
Gabriel Garcia Marquéz morreu na semana passada. Você era um fã?
-
O primeiro livro dele que eu li e achei o título fantástico foi:
"Crônica de uma morte anunciada". Nunca tinha lido um livro assim.
Depois li "Cem anos de solidão", mas "Crônica" achei legal pelo título.
Não sabia da história e da grandeza do Gabriel, mas peguei o livro pelo
título. E é um livro fantástico.
Por fim, o Flamengo entra neste Brasileirão brigando pelo quê? Título? Libertadores?
-
Penso assim: quando entro na competição, é para ganhar. Se não der para
ganhar, tudo bem, mas temos que entrar para ganhar. Temos que pensar em
ser campeão.